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fevereiro 14, 2005

A Educação em Portugal

A propósito do post anterior, gostaria de referir que apesar deste projecto da Escola da Ponte ser "revolucionário" como forma de pensar a Escola, não é novo!Já vai fazer 30 anos! Nem sequer é unico em Portugal.

Apesar do projecto da Escola da Ponte estar mais desenvolvido, já nos anos 80, em Faro, na escola do Alto Rodes, eu, no ínicio da semana, fazia um plano do que queria fazer ao longo da semana (fichas de meio físico, de matemática, desenhos, textos, etc.) e à sexta fazia a sua avaliação, tendo de justificar quaisquer alterações (estive doente, baldei-me, estive entretido a desenhar mais do que a escrever, entusiasmei-me com as fichas de meio fisico...).

Tinhamos assembleias de escola regularmente, onde os assuntos de interesse de todos eram discutidos em plenário.

Tinhamos visitas de estudo, trabalhos de grupo,acompanhamento por vários professores (havia estagiários, mão de obra barata...), diferentes níveis de aprendizagem estabelecidos em função das necessidade de cada um e não em função do ano (de vez em quando "migrávamos" de turma/ano.

Havia um jornal escolar, impresso pelos alunos (naquelas gelatinas antigas, depois de montarmos os textos com um espelho na impressora à Guttenberg) e uma peça de teatro (cada semana preparava um grupo).

Direitos e deveres eram discutidos e estabelecidos em grupo e tinhamos de vez em quando até aulas de educação física.

E apesar de tudo isto (para horror de alguns pedabobos modernos) ainda tinhamos tempo para aprender... Sim, porque (parece incrivel mas é verdade) ao fazermos estas coisas estavamos realmente a aprender...Não é só uma utópica teoria esquerdista soissante-huitard...

Não estavamos apenas a aprender "os valores", a "solidariedade", o "gostar da natureza, dos bichinhos e das pessoas", o "raciocínio" (essa coisa que serve para tudo mas ninguem sabe como medir).

Também aprendiamos a ler, a escrever, a contar (de vez em quando pelo dedos) e todas essas coisas importantes que nos levaram hoje a ser juizes, professores, quadros de empresas, empresários, médicos entre outras profissões que é bonito ser (acho que a políticos, daqueles dos partidos, que sobem depois de lamber muitas botas ninguém chegou...nem todos os sistemas são perfeitos!)

Eu hoje fico é parvo, pensando como é que eu consegui aprender alguma coisa quando entrei para o ciclo (agora 5º ano) com aulas de 50 minutos, com 30 malfarros a olhar para a frente (na minha turma éramos 24 porque um de nós era meio surdo...), sempre a mudar de sala e de assunto.

Mas o que é mais estranho é que estes principios são defendidos pelos últimos 4 governos (se contarmos com 2 do PS e dois do PPD-PSD/CDS-PP), como podemos ver nos documentos das sucessivas "reformas" (de Marçal Grilo a David Justino, porque a esta ministra nem se lhe ouviu uma consideração sobre isto)

Uma escola inclusiva, que prepare para a vida, para o mercado de trabalho, para o mundo académico (e olhem que parece dificil juntar coisas que na cabeça de muitos são incompativeis), que promova os valores da cidadania, da saúde, do meio ambiente (e até da produtividade, mó!)

Pois, mas com turmas de 30 moços, não se vai lá, com percursos formativos iguais também não (até quando se fala noutros cursos, são todos iguais: em Olhão são para pescadores -espécie em vias de extinção- ou trabalhadores dos enlatados - outros que tais-, em Faro técnicos de informática ou administração- é o futuro dizem- e quando se quer algo mais exótico, animadores do ambiente, sócio-culturais, desportivos, geronto-animadores - o que é preciso é animar a malta-).

Com professores entulhados em tarefas burocráticas, idem idem, aspas aspas (sei do que falo sou director de duas turmas).

Com planos que passamos 3 meses a planear e depois arquivamos e deitamos fora no final do ano igual; com avaliações de escola e de processos pedagógicos que toda a gente tem medo e ninguém leva a sério (e os que as pessoas levam a sério e aparecem nos telejornais, são os que servem para pouco, vide o ranking das escolas); com exames nacionais a servirem de meta, não interessando o caminho a percorrer e principalmente, com medo de mudar ou quando se muda, muda-se a forma que o conteúdo é igual (e aqui são culpados todos, desde o primeiro ministro, aos professores, aos alunos e os seus encarregados de educação).

Já nem peço uma escola da Ponte no Ensino Secundário, mas apenas que estes exemplos, que já deram garantias, se multipliquem (e outros, que também existem!) nas escolas do Ensino Básico (para quem não sabe, do primeiro ao nono ano) e por este país.


Publicado por mestre andré às fevereiro 14, 2005 06:40 PM